- Pronto, podemos começar. – disse o coronel, parecendo satisfeito com o trabalho dos guardas que deixavam a sala.
- Iniciamos com uma descarga de 2000 volts, por uns seis segundos. Pode acionar o primeiro botão. Fica de olho no cronômetro. – orientou.
Antônio tentava seguir os comandos sem pensar. Não dava. Então tentou se concentrar nas crianças. Era por elas que estava fazendo aquilo. Para que ninguém voltasse a lhes fazer mal.
- Tá certo assim? Já chega? – perguntou.
- Tá. Agora reduz pra 500 volts por um minuto.
Foi seguindo as instruções. Podia ver o vulto do condenado sacudindo-se espasmodicamente na cadeira, em intensidade proporcional à da descarga. 1000 volts por 10 segundos. Mais um minuto de 500 volts e, para finalizar, mais um pouquinho de 2000 volts. A sala toda foi tomada por um cheiro de queimado.
- Muito bem, acho que você já pegou a coisa. - disse o coronel - Esse cheiro é que é extremamente desagradável. Cadê o “bom ar”?
O coronel pegou o spray e saiu borrifando pela sala.
- Agora é só chamar o médico pra passar o atestado de óbito – concluiu e, virando-se para Antônio, pediu - Aperta essa campainha branca, por favor.
Enquanto aguardavam a chegada do médico, Antônio procurou recapitular os últimos acontecimentos e analisar o impacto que lhe tinham causado. Acabara de matar um homem, mas não havia culpa, não se sentia um assassino. Assassino era o condenado, ele mesmo havia traçado seu destino. Antônio apenas cumprira seu dever. Sentia alívio e, no fundo, uma ponta de orgulho.
O médico examinou rapidamente o corpo e, em seguida, chamou dois guardas que o colocaram sobre uma maca e o levaram embora. Na saída, passaram bem ao lado de Antônio, que finalmente pôde ver melhor o rosto do condenado. Parecia, agora, um homem normal. Tinha a face coberta de suor e do nariz escorria um filete de sangue. Por que não o punham logo num daqueles sacos pretos, próprios para defuntos? Como se tivesse lido seus pensamentos, o coronel explicou que o morto seria levado à sala ao lado, onde seria preparado para ser transferido para o hospital, no 2º andar. Lá, seus órgãos seriam aproveitados para transplantes. Portanto, não havia tempo a perder.
- Que interessante. Quer dizer que até um monstro desses, antes de morrer, tem um momento de bondade, em que decide ajudar o próximo? - comentou Antônio.
- Nem sempre é bem assim... Mas dispomos de meios para persuadi-los a colaborar - explicou o coronel, com um olhar de cumplicidade.
Já não se espantava com nada. Quem era ele para questionar os métodos do governo? Tá bem que era uma grande sacanagem... Não havia mais direitos humanos! Mas, por outro lado, seriam humanos esses criminosos? No final das contas, simpatizava com a idéia de aproveitar a morte dessa escória para ajudar as pessoas de bem. Ao mesmo tempo em que matavam um monstro, salvavam a vida de uma pessoa inocente, alguém que ainda podia ser útil à sociedade.
O coronel mandou entrar o próximo condenado e despediu-se de Antônio.
- Agora é com o senhor. Eu tenho uns assuntos para resolver. Qualquer problema, estarei na minha sala. Aliás, antes de ir embora, passe lá pra tomar um cafezinho... Ah! Aqui está o relatório dos crimes dos três próximos elementos. É sempre um incentivo... Até logo e bom trabalho.
Enquanto os policiais preparavam o sujeito para a execução, Antônio aproveitou para examinar as fichas. Elas estavam numeradas conforme a ordem de execução, mas omitiam o nome do criminoso, indicando somente o número da identidade, o sexo e a idade, além, é claro, da descrição dos crimes cometidos.
O próximo condenado era um motorista de táxi tarado, responsável por pelo menos 13 estupros, 4 deles seguidos de morte. Havia, ainda, uma empregada doméstica que assassinou o patrão, a patroa e os três filhos do casal, e depois tentou fugir com as jóias e os dólares da família. Para encerrar, seria executado um seqüestrador que, após algumas operações bem-sucedidas, matou o filho de um empresário que se recusou a pagar o resgate exigido.
Finda a preparação do assassino, Antônio viu-se só com sua missão. Concentrou-se e deu início à primeira descarga. O homem estrebuchava na cadeira. Procurou desviar o olhar, fixando-os nos comandos e no relógio. Por um lado, não queria ver o sofrimento do calhorda... Afinal, apesar de tudo, era um ser humano... No entanto, uma curiosidade mórbida o instigava a dar umas espiadas. E, quanto mais olhava, mais queria ver. Era um caminho sem volta: tanto fazia ver só um pouquinho ou ver tudo. E Antônio queria ver tudo. Mas tinha medo. Poderia ficar traumatizado. Além disso, sabia que não era certo, não era politicamente correto querer acompanhar os detalhes da morte de alguém. Mas estava sozinho, ninguém saberia... Que horror, deveria estar chocado. Chocado. Chocado estava o cara da cadeira... Não! Não podia estar pensando essas bobagens numa hora dessas. Não era um sádico. Com certeza, tudo não passava de um mecanismo inconsciente de defesa de um homem extremamente sensível que, de outra forma, não teria estrutura para suportar uma tarefa tão sórdida. Era puro escapismo... Natural. Normal, até... Agora tinha que enfrentar a realidade e se concentrar nas descargas. Só faltava a última. Isso! Estava encerrado. Tinha matado mais um.
Tudo transcorrendo sem falhas. Estava no pleno controle da situação. Que poder! Durante a terceira execução, começou a sentir um estranho prazer no desempenho de sua função. Um prazer que o Antônio que ele até então pensava ser jamais sentiria. Aquele Antônio já teria desmaiado ou pedido arrego. Era um covarde, o velho Antônio... Não teria coragem de ter prazer. Mas agora o poder o satisfazia. Um poder quase divino!
Estava tomado de uma estranha euforia, quando viu o corpo de sua terceira vítima sendo levado da sala. De repente, foi como se acordasse de um pesadelo. Ou melhor, como se vivesse um pesadelo. A mulher deitada na maca era uma mulata de idade indecifrável, corpo roliço, que lhe dava um ar extremamente maternal. Olhava para ela - o rosto sofrido agora tranqüilo - e a via viva, cheia de energia, carregando duas crianças pequenas no colo e com mais meia-dúzia delas, em escadinha, agarradas à barra de sua saia. Aquela mulher, com certeza, era mãe. As crianças tinham perdido a mãe. Provavelmente, não tinham pai. Ele tinha matado a mãe das crianças. Não tinham mais ninguém. Perambulavam sozinhas pelas ruas, agarradas, agora, à maiorzinha. Choravam, os olhinhos vermelhos, os narizes sujos, as fraldas dos menores imundas. Tinham frio, fome e medo. Onde estariam as pobres crianças?
O começo foi interessante, más já está se tornando chato. Não dá para fugir do Freud?
ResponderExcluirLinhobeto, obrigada pela crítica... Pra fugir do Freud, não sei se dá, mas confesso que tb fiquei surpresa com o tamanho desse capítulo (que na versão original ia desde a hora em que Antonio sai de casa até a hora em que ele deixa o corredor da morte, após o dia de "serviço"). Enfim, o fato é que ainda tem um capítulo antes do Antonio sair do corredor da morte... Sorry... De qualquer jeito, fica anotado para futura edição :):) Mas não desiste da história, porque vai animar quando entrarem mais personagens... Isso me lembra o meu marido que, caindo no sono no começo daquele filme "Antes do pôr-do-sol" (em que um casal discute a relação enquanto passeia por Paris), me pediu para acordá-lo se aparecesse mais algum personagem...(e o pior é que não apareceu!).
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