Na manhã do dia 10, Antônio acordou um pouco mais cedo do que de costume. A verdade é que não pregou os olhos durante toda a noite. Quando, por volta das cinco da madrugada, finalmente conseguiu conciliar o sono, já estava praticamente na hora de acordar.Às seis levantou-se e foi para o banho. Esqueceu de calçar as havaianas e tomou um choque ao tocar na torneira para temperar a água. Chuveiro elétrico era mesmo uma pobreza... Mas, pior era a lembrança que ele trazia da missão que estava prestes a cumprir.
Tomou café sozinho na cozinha e, antes de sair, foi acordar suas filhas que tinham escola às oito. Sentiu-se culpado ao beijar o rosto de Isabel, nove anos, pura inocência. Nada sabia, ainda, das maldades do mundo. Aliás, até que sabia bastante. Assistia todas as noites aos jornais da televisão e estava por dentro dos últimos homicídios e sequestros. Há cerca de um mês, surpreendera-o ao indagar sobre a origem da palavra “esquartejamento”. A seu ver, deveria chamar-se “esquinquejamento”, uma vez que somadas as partes a serem separadas do tronco, chega-se a cinco: dois braços, duas pernas e uma cabeça.
Luísa acompanhou-o até a porta.
- Pai, hoje, quando você voltar, eu preciso ter uma conversa com você.
- Claro, minha filha. Algum problema na escola?
Luísa tinha apenas 15 anos, mas já tinha um corpo de mulher feita. Ninguém diria que ainda não havia concluído a 8ª série. Isso o atordoava. Para ele, ainda era sua menininha.
- A gente conversa à noite. Tchau, pai.- abriu a porta para ele e despediu-se com um beijinho.
- Tá bom, filha. Até logo.
Não devia ser nada sério. Se não fosse um problema no colégio, podia ser um aumento na mesada. Desde que ela não viesse de novo com aquela história de viajar sozinha com o namorado... Não que ele fosse moralista. Não, ele sabia que a filha já era quase uma mulher e que era natural que ela iniciasse sua vida sexual. Mas estava namorando esse rapaz há pouco tempo, uns seis meses, e ele era, também, uma criança. Enfim, o que tivesse que acontecer, aconteceria, mas ele não ia patrocinar uma lua-de-mel pra dois pirralhos. Muito pelo contrário, faria tudo que estivesse ao seu alcance para retardar ao máximo a iniciação sexual da filha. Nem ela, nem aquele namoradinho, tinham maturidade suficiente. Temia que ela acabasse sofrendo. Vera, sua esposa, não concordava com ele. Tiveram uma briga horrível em que ela o acusou de não estar se importando à mínima com a felicidade da filha. Disse que seus argumentos não passavam de desculpas esfarrapadas para disfarçar o ciúme doentio que tinha de Luísa.
Quando deu por si, Antônio estava prestes a perder o ponto do ônibus. Puxou o sinal e saiu tropeçando, empurrando quem estivesse pelo caminho. Saltou em frente ao Fórum. O “corredor da morte” tupiniquim ficava no antigo Edifício Garagem Menezes Cortes, que já estava praticamente desativado há alguns anos, desde que foi proibido circular em carros particulares no centro da cidade. O Governo do Estado, então, em tempo recorde, reformou-o para abrigar o aparato necessário ao extermínio de criminosos.
Apresentou-se no portão principal, onde, do interior de uma guarita, um guarda verificou os seus documentos e a carta de convocação. A esperança é a última que morre... Quem sabe não aconteceria um daqueles típicos problemas burocráticos do serviço público e ele seria impedido de entrar? Ainda discutiria com o guarda, apontando para a carta e lembrando que não era nenhum moleque para ser tratado daquela maneira. Afinal, tinha um emprego e estava ali apenas cumprindo o seu dever de cidadão. O guarda continuaria implicando com algum detalhe irrelevante e ele acabaria perdendo a paciência e soltando um palavrão. Então, com certeza, o guarda não arredaria pé. Ele era a “autoridade” ali e, se disse que Antônio não poderia entrar, Antônio não ia entrar e ponto final. E, se continuasse a insistir naquele tom, seria enquadrado por “desacato a autoridade”.
O guarda deu uma olhadela na identidade de Antônio e devolveu-a em seguida, explicando:
- A carta fica comigo. O senhor deve dirigir-se ao 8° andar, sala 1. Tenha um bom dia.
Acionou o portão eletrônico e Antônio teve que entrar.
Foto: Beto Valente
Sei que deve andar ocupada, mas posta o 4 logo! To adorando! Bjo
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