O prédio tinha guardas por todos os lados. Até dentro do elevador havia dois policiais armados com metralhadoras moderníssimas. Parecia coisa de traficante de drogas. Tá certo que tem que haver segurança, mas eles não precisavam ficar apontando as armas pra cara das pessoas.Na sala 1, Antônio foi atendido por um senhor de seus 50 anos que, apesar do traje civil, tinha um quê de militar. Era ele o encarregado de instruir os convocados nas manhas da cadeira elétrica.
- Pois bem, senhor Santos, sente-se aí em frente ao quadro negro, que eu vou lhe dar umas explicações iniciais. Infelizmente o nosso vídeo está na manutenção. Uma projeção, com certeza, lhe daria uma noção mais abrangente do método. Mas, não há de ser nada, a coisa é bem simples e o senhor não vai ter a menor dificuldade em entender.
Antônio sentou-se e o homem, de pé, começou a exposição:
- Antes de mais nada, acho que esqueci de me apresentar. Eu sou o coronel Cruz. Bem, a coisa é a seguinte: o elemento tem raspados os cabelos da parte superior da cabeça e os pelos das pernas, onde serão fixados os eletrodos, mas, quanto a isso, o senhor não precisa se preocupar, temos funcionários especializados no serviço. Depois, o elemento é atado à cadeira por diversas correias, dessa forma - explicou, indicando com setas de giz amarelo os locais onde deveriam ficar as correias.
- Isso impede que, com a descarga elétrica, ele seja arremessado da cadeira – esclareceu o coronel, com a naturalidade de um comissário de bordo antes da decolagem de um avião, e continuou - Finalmente, iniciam-se as descargas elétricas. É aqui que o senhor entra em ação. As descargas devem ser dadas de forma a matar o elemento sem, contudo, carbonizá-lo... É que uma descarga muito forte elimina o elemento, mas provoca queimaduras e pode transformá-lo num verdadeiro churrasco...
Antônio sentiu o estômago dar voltas. Não deveria ter tomado café da manhã... Já não ouvia nada do que o coronel dizia. Ele continuava falando das descargas elétricas, quantas deviam ser, em que intensidade. Enquanto isso, as torradas de Antônio insistiam em voltar. Ele temia que, a qualquer momento, não conseguisse se controlar e vomitasse no meio da sala. Queria desmaiar. Quem sabe, se passasse muito mal, não seria dispensado. Tentou concentrar-se na “aula”.
- ...Como o senhor vê, é tudo muito simples. Qualquer dúvida, o senhor pode consultar esta apostila que explica tudo em detalhes. Hoje teremos quatro execuções. Eu vou supervisioná-lo na primeira e, depois, estarei na minha sala, onde o senhor poderá me encontrar caso tenha algum problema. Bom, vou levá-lo à sala de execuções. Por aqui, por gentileza.
Que remédio, tinha que acompanhá-lo... Seguiram até o fim do corredor. Pararam em frente a uma enorme porta, que parecia de cofre de banco, com um buraquinho no meio e uma placa de “Identifique-se” ao lado. O coronel Cruz enfiou o dedo indicador no buraco e a porta se abriu. Passaram, então, a um pequeno hall e pararam diante de mais uma porta. Desta vez o coronel digitou uma senha em um pequeno teclado e passou um cartão magnético na fechadura. Enquanto isso, duas câmaras de circuito interno de televisão vigiavam seus movimentos. Tudo moderníssimo. Entraram, finalmente, em um corredor cheio de guardas armados. O coronel apontou a primeira porta à direita, explicando ser a sua sala. Mais adiante, pararam na frente de um cartaz com um raio vermelho desenhado, como nos avisos de fios de alta tensão:
- Aqui estamos - disse o coronel Cruz, abrindo a porta e sinalizando para que Antônio entrasse. A sala era dividida por um vidro fumê: de um lado, estava a cadeira elétrica; de outro, a mesa com os controles e uma poltrona giratória para o carrasco. O coronel fez questão de mostrar os detalhes da cadeira, elogiando a sua qualidade e conforto.
- Esta cadeira é um modelo americano de 1985, muito eficiente. Como o senhor vê, ela é feita em material da melhor qualidade, toda acolchoada. Não sei pra quê, mas, sabe como é americano... Direitos humanos e essas coisas...- pareceu sorrir da própria observação, mas logo se recompôs e continuou - Enfim, o senhor não precisa se preocupar com a fase preparatória do processo. Um funcionário especializado é encarregado de fixar os eletrodos e atar o elemento à cadeira. Vamos ver os controles.
Após uma rápida explicação, o coronel certificou-se de que Antônio estava bem acomodado na sua poltrona e mandou preparar o primeiro condenado.
- Esse primeiro sujeito é daqueles que dá gosto mandar pro inferno. O senhor já deve ter ouvido falar nesse caso. É aquele animal que invadiu um jardim de infância, amarrou as criancinhas numa árvore e estuprou e esfaqueou as professoras e a diretora na frente delas. Pra completar, ele arrancou os olhos da diretora e comeu com “ketchup”. Olha a cara do filho da puta – apontou o homem que vinha entrando, trazido por dois guardas.
Antônio não teve tempo de ver bem o rosto do condenado, mas os olhos eram os de um louco. É, tratava-se realmente de um caso perdido. Tinha que morrer. Do outro lado do vidro, enquanto os guardas atavam o criminoso à cadeira, de seu posto, só conseguia distinguir as silhuetas. Para seu alívio, a sala não tinha janelas e a iluminação era mínima. Respirou fundo e tentou se concentrar nas instruções do coronel. Afinal, talvez a coisa não fosse assim tão sórdida...
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