quarta-feira, 25 de maio de 2011

O CARRASCO - 6

- Com licença, podemos preparar o próximo? - perguntou o guarda, cansado de esperar por uma iniciativa de Antônio.

- O quê? Ah, claro - respondeu Antônio, distraído, e, quando o guarda já ia saindo, perguntou – Escuta... Só uma coisa... Aquela mulher que foi levada agora... Você sabe se ela tinha filhos?

- Não sei, não, senhor, mas eu posso perguntar pro pessoal lá da carceragem. Lá eles têm mais contato com os condenados...

- Será que você poderia me fazer esse favor, antes de começar a preparar o próximo? – pediu Antônio, folheando os relatórios que tinha em mãos, fingindo concentração.

- O senhor é que sabe, eu vou dar um pulinho lá e já volto - respondeu o guarda, saindo desconfiado.

Antônio aproveitou para examinar melhor a ficha da mulher. Tinha 45 anos. Bom, talvez não tivesse filhos pequenos... Assassinara 5 pessoas, sendo 3 crianças. Não havia atenuantes. Com ou sem filhos, essa mulher era uma assassina. Mas, não havia jeito, a imagem das crianças órfãs não lhe saía da cabeça...

Finalmente, o guarda voltou com notícias:

- Olha, o pessoal da carceragem disse que ela não deixou filhos, não. Parece que comentou de um, que ajudava ela, mas que morreu num tiroteio com a polícia, há coisa de dois anos. Disse que foi um desgosto tão grande, que nem se importava mais de morrer...

- Ah, muito obrigado. Era só isso que eu queria saber. Pode preparar o próximo, por favor - pediu Antônio, aliviado.

Tratava-se, então, de uma família de criminosos. É, não tinha motivos para sentir-se culpado. Estava executando pessoas da pior espécie. Era como se fosse um médico social, extirpando um câncer do seio da sociedade. Era justo e até natural que se sentisse realizado em cumprir sua missão. E não custava lembrar que não estava ali por opção.

Foi com esses pensamentos que partiu para o extermínio de sua derradeira vítima. E que prazer sentiu... Logo na primeira descarga de 2000 volts, assustou-se ao constatar que a visão do marginal - o corpo contraindo-se em espasmos provocados pela corrente elétrica - lhe provocou uma ereção. Havia algo de erótico na agonia do sujeito. O homem parecia estar tendo orgasmos múltiplos, de intensidades variadas. O próprio Antônio estava a ponto de gozar quando, para sua frustração, teve que interromper as descargas. Já havia dado cabo do criminoso. Se continuasse, iria transformá-lo em churrasco, como havia advertido o coronel.

Resignado, chamou o médico e retirou-se assim que este confirmou o óbito. No corredor, perguntou ao guarda onde ficava o banheiro. Demorou um pouco para conseguir urinar, ainda estava um pouco excitado. Depois, lavou longamente as mãos e o rosto e saiu em direção à sala do coronel Cruz.

- Com licença, o senhor está muito ocupado? - perguntou, pela porta entreaberta.

- Imagine! Por favor, entre - exclamou o coronel, abrindo um largo sorriso e indicando expansivamente a cadeira colocada diante de sua mesa - Sente-se aí.

- Bom, não quero incomodar - explicou Antônio, sentando-se timidamente - Só vim tomar aquele cafezinho que o senhor tão gentilmente ofereceu.

- Ora, o senhor me dá um grande prazer. Sabe, eu fico muito sozinho aqui, sinto falta de uma conversa.

Era um sujeito simpático esse coronel. Um tipo franco, sem papas na língua. Em pouco tempo, Antônio estava completamente à vontade. O coronel mandou trazer café e biscoitos, que Antônio comeu enquanto conversavam animadamente. O militar elogiou muito a sua atuação, diferente da de alguns mariquinhas, que passavam mal, choravam, desmaiavam, e largavam o serviço pela metade. Isso sem falar nas mulheres... Essas, raramente aceitavam a convocação e, quando aceitavam, era um deus-nos-acuda. Mas, isso era natural, o serviço não era próprio para elas. Por essas e outras é que o coronel Cruz não concordava com o método de arregimentação de carrascos. Aliás, considerava o termo “carrasco” muito forte... Coisa da imprensa, que acabou pegando... De qualquer jeito, achava que seria muito melhor se o governo procurasse contratar um pessoal efetivo para o trabalho. Não seria tão dispendioso e pouparia tempo, já que não seria necessário explicar o método a cada novo convocado. O coronel falava com genuína empolgação sobre o tema:

- A propósito, estou trabalhando num projeto que, inclusive, já está tramitando no Legislativo, que propõe essas e outras modificações. O senhor mesmo poderia... Não, não, deixa pra lá...- desistiu o coronel, deixando um enorme suspense no ar.

Ansioso, Antônio perguntou:
 
- Eu poderia o quê? Por favor, fale.

- O senhor é funcionário do estado, não é?
 
- Sou sim, por quê?
 
- É porque... Nada não, bobagem minha. O senhor não se interessaria.

- Ora, por favor, fale logo, acabe com esse mistério - insistiu Antônio, inexplicavelmente sentindo que poderia estar diante da chance de sua vida, embora sequer imaginasse o que o coronel estava a ponto de propor - Como posso saber se me interessa, se o senhor não fala o que é?

- É uma idéia que me ocorreu agora. O senhor, como funcionário público, poderia ser cedido, transferido para outro departamento, sem que isso representasse gasto adicional para o governo. Ou seja, o senhor poderia ser... mas que loucura a minha. O senhor, com certeza, é mais útil no seu serviço e, só porque se saiu bem hoje, não quer dizer que preferiria trabalhar aqui.

Por essa Antônio não esperava:

- Pois é, acho que não. Pra dizer a verdade, não sei. O senhor me pegou desprevenido.

No fundo, bem que gostava da idéia, mas não tinha coragem de admitir. As coisas estavam acontecendo muito rápido. Temia que fugissem ao seu controle.

- Mas é claro que o senhor não sabe - afirmou o coronel - Precisa de um tempo para pensar, não é? Pois tome o tempo que quiser. Pense bem, há uma série de vantagens, a começar pela carga horária do trabalho. Além disso, o senhor estará prestando um valioso serviço à sociedade... Oficial de cumprimento de penas terminativas de vida. Esse é o nome do cargo que eu propus no projeto que está tramitando... Soa bem, não é mesmo?

- Soa. Soa muito bem. – concordou Antônio, grato pela oportunidade de poder responder alguma coisa com convicção e sem saber o que dizer da proposta de trabalho.


O coronel levantou-se e saiu de trás de sua mesa. Tirou do bolso do paletó um cartão, que estendeu a Antônio, dizendo:

- O senhor pense bem, avalie os prós e os contras e, quando chegar a uma conclusão, me avise. Seria ótimo tê-lo em minha equipe.

Antônio pegou o cartão e, incapaz de articular uma resposta, ergueu-se da cadeira e apertou a mão que o coronel lhe oferecia. Despediram-se assim: o militar confiante na decisão de Antônio - que, fosse qual fosse, seria a mais acertada - deu-lhe uns tapinhas nas costas e reiterou o prazer que fora conhecê-lo; Antônio balbuciou uma resposta, concordando em telefonar logo que decidisse, despediu-se e saiu da sala completamente desorientado.

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