Na manhã seguinte, tomou o café com a esposa e a filha. Luísa ainda estava com os olhos inchados de tanto chorar, mas estava bem mais calma. Aliás, a calma inundava o ambiente. Conversaram em voz baixa, sem nenhuma exaltação. Concordaram em não tomar nenhuma atitude precipitada, a gravidez de Luísa ainda estava na sexta semana. Ela já não tinha certeza se queria abortar. De qualquer jeito, os pais acatariam e apoiariam a sua decisão. Antônio sabia que não seria bem assim. Ele conseguiria convencer a filha a ter o bebê. Seria um menino: o filho que ele não teve. Quando, finalmente, Vera e Luísa saíram, aproveitou para telefonar para o coronel. O entusiasmo do militar ao ouvi-lo era contagiante. Marcaram um encontro para o almoço, em um restaurante discreto.
Na repartição, Antônio não teve concentração para nada. Já não estava mais ali, pouco importava o que fizesse ou deixasse de fazer, talvez fosse seu último dia. Lúcio veio perguntar-lhe sobre a convocação do dia anterior:
- E aí, Antônio, como foi ontem?
- Eu preferia não falar nesse assunto, espero que você compreenda... – respondeu, fingindo ocupar-se de alguns papéis à sua frente;
- Claro, me desculpe, acho que foi mesmo falta de tato minha perguntar assim... É que eu estava curioso... Mas, não se fala mais nisso. E a família? E Luísa? Já está uma moça, né? Bonita como a mãe... – insistiu o amigo, obviamente sedento por uma conversa que o mantivesse o mais distante possível do trabalho.
Lucio tinha realmente o dom da inconveniência... Perguntava a esmo e sempre conseguia tocar nos assuntos que as pessoas mais queriam evitar. Tinha vontade de mandá-lo à merda – como já fizera algumas vezes – mas preferiu se controlar. Afinal, faltava pouco para que se visse definitivamente livre do interrogatório matinal do colega.
- É verdade, mas tampouco quero conversar sobre isso. Aliás, acho que não estou pra muita conversa hoje. – respondeu, tentando, sem sucesso, não ser demasiado antipático.
- OK, OK, quando o seu humor melhorar, me avisa.- Lucio encerrou a conversa, com ar magoado.
Ao meio-dia em ponto, Antônio chegou ao restaurante escolhido pelo coronel Cruz. Era um pequeno restaurante natural, na Travessa do Ouvidor, um dos últimos "à la carte" em meio aos "quilos" que proliferavam no centro da cidade. Não era muito chegado à alimentação saudável, mas pouco importava a qualidade da refeição, qualquer sacrifício valeria a pena. O coronel já o aguardava, sentado a uma mesa ao fundo. Quando o avistou, levantou-se e cumprimentou-o efusivamente:
- Ora viva, quem diria?! Eu tinha quase certeza de que o senhor aceitaria minha proposta, mas não pensei que fosse ser tão rápido.
- Pois é, eu também não...- respondeu Antônio, um pouco constrangido com a recepção e tomando assento em frente ao coronel.
- Mas, deixemos os negócios para depois. Garçom! O cardápio, por favor! – o coronel acenou para o garçom e depois, voltando-se para Antonio, continuou – As saladas são todas muito boas... e podem vir com carne do soja ... Mas tem também as massas, que são uma excelente pedida para os não vegetarianos... Eu acho que vou na salada de brotos com almôndegas de soja. É uma delícia!
O garçom trouxe os cardápios. Antônio examinou o seu distraidamente e acabou escolhendo uma salada de macarrão com tomate e queijo. Era o que havia de mais inofensivo no menu, já que não envolvia verde nem soja.
A comida foi servida em poucos minutos. As almôndegas do coronel exalavam um aroma esquisito, mas ele não cansava de elogiá-las. Discorreu longamente sobre os benefícios de uma alimentação vegetariana: para o indivíduo e para a sociedade como um todo. Cadáveres eram comida apropriada para abutres. Entrou em detalhes sobre digestão e decomposição, enquanto Antônio, grato por não estar diante de um bife, se esforçava para apreciar sua salada. Foi só na hora do cafezinho que o coronel tocou no assunto que os reunira:
- Bom, pelo que eu entendi, o senhor decidiu aceitar a minha proposta.
- É, em princípio, eu estou interessado, sim... Mas eu gostaria de saber mais detalhes.
- A coisa é a seguinte: ainda não enviei meu projeto pelas vias oficiais, mas, informalmente, já conversei com meus superiores, que têm o poder de decisão, e eles me garantiram apoio total. Sugeriram que encontrasse um funcionário público estadual interessado no cargo, para fazer uma primeira experiência, que, se resultar positiva, será implementada definitivamente, não só aqui no Rio, mas em todo o país. É importante deixar bem claro que o senhor não correrá risco algum. Se, porventura, a minha idéia não der certo, o senhor voltará à sua lotação atual. O senhor terá essa garantia... Mas, eu tenho plena convicção de que não será necessário...
- Ótimo, coronel, isso é muito tranqüilizador... Só que tem outra coisa que me preocupa... Eu não gostaria que ninguém viesse a saber da minha nova atividade...
- Claro! Quanto a isso, o senhor pode ficar completamente descansado: a sua função, assim como a minha, será absolutamente sigilosa. Inclusive, o senhor não estará autorizado a revelá-la a ninguém, nem mesmo à sua família. Para todos os efeitos, o senhor será transferido para outro departamento, em missão sigilosa.
- Maravilha, o senhor não imagina o alívio que essa informação me dá... Agora, outra coisa que eu gostaria de saber é se seria possível obter um aumento salarial. Não sei, uma gratificação ou algo assim. É que a vida está difícil e, pra completar, ontem fiquei sabendo que, em breve, teremos mais uma boca para alimentar na minha casa.
- Meus parabéns! O senhor já tem filhos ou é o primeiro?
- Eu tenho duas filhas, coronel, e já e mais do que o suficiente... A novidade é que a mais velha está grávida.
- Meu Deus, não pensei que o senhor já tivesse idade pra ser avô! – exclamou o Cel. Cruz, genuinamente surpreso.
- Nem eu, nem eu...- respondeu Antonio, balançando a cabeça, desanimadamente, mas com um leve sorriso nos lábios.
- Que loucura... Mas, voltando ao assunto, eu compreendo perfeitamente a sua preocupação. Veja bem, num primeiro momento, o cargo que eu imaginei, "Oficial de Cumprimento de Penas Terminativas de Vida"... Me perdoe a falta de modéstia, mas acho perfeito esse título que eu bolei... Mas, enfim, num primeiro momento, o cargo ainda não existirá. Então, o senhor vai continuar ocupando o seu atual cargo efetivo. Mas, eu já pretendia mesmo oferecer um incentivo financeiro... Então requeri a concessão de um adicional de periculosidade e outro de insalubridade para a função. Eu não posso jurar que vão sair, mas a probabilidade de que consigamos ao menos um deles é grande. Afinal, a função é evidentemente estressante. É uma enorme carga emocional... E o perigo, embora a gente saiba que não há risco nenhum, acho que todo mundo que lida com criminosos perigosos deve receber um adicional de periculosidade... O perigo é inerente, se é que o senhor me entende...
- Maravilha! O senhor pensa em tudo! Por mim, estou à sua disposição para começar quando o senhor achar melhor.
- Ótimo, ótimo. Hoje mesmo vou tratar da sua requisição em regime de urgência. Entro em contato até o final da semana para que o senhor comece na próxima segunda-feira. Enquanto isso, sugiro que não comente nada na sua repartição.
- Perfeito. Aliás, é melhor nós irmos andando, porque eu não quero levantar nenhuma suspeita com ausências mais demoradas que o normal.
- É, vamos sim. Garçom! A conta, por favor!
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