sábado, 4 de junho de 2011

O CARRASCO - 8


    Não podia ser. Uma criança não engravida. Estava tendo um pesadelo, mais um. Aquele dia não existia. Era pura imaginação. Ou seria castigo? O castigo mais rápido do oeste.

 
    - Como é que é? – perguntou, mais para ganhar tempo, pois tinha entendido perfeitamente.

 
    - Eu estou grávida, pai. – repetiu, Luisa, pacientemente, e logo acrescentou – Mas eu decidi abortar.

 
    Era só o que faltava! Quem aquela pirralha pensava que era, pra falar com ele daquele jeito? "Eu decidi abortar". Como podia sair decidindo coisas, sem nem ao menos ouvir sua opinião? Mas, pobrezinha, devia estar sofrendo. Tinha que manter a calma.

 
    Luisa fitava-o, aguardando ansiosa por sua reação. O que dizer? Ele nunca tinha preparado algo pra dizer nessa situação. Até já tinha pensado no risco de isso vir a acontecer, mas sempre afastou o pensamento, achando melhor nem pensar, para não atrair. Agora se arrependia. Se tivesse um discurso ensaiado, como o que tinha pronto para o dia em que descobrisse que alguma das filhas estava fumando maconha... Já que não tinha, não podia demonstrar insegurança. O melhor era ir por partes:

 
    - Bom, vamos com calma, você tem certeza?

 
    - Peguei o resultado do exame ontem à tarde - respondeu Luísa, um pouco mais serena.

 
    - E porque você só está me contando isso agora? - perguntou, indignado.

 
    Não dava pra entender como ele não tinha percebido nada antes. Tentava lembrar algum sinal, alguma coisa estranha, mas não lembrava de nada. Na verdade, nos últimos tempos ele estava preocupado demais com a tarefa daquela manhã para prestar atenção ao comportamento de sua família.

 
    - Eu precisava pensar. E, também, tinha que falar com o Marquinhos. - respondeu Luisa, com uma naturalidade que já o estava tirando do sério.

 
    Aliás, Vera também assistia à conversa sem demonstrar qualquer espanto. Parecia achar normal a atitude da filha. Com certeza, já estava sabendo de tudo desde o começo, desde a primeira vez da filha. E não lhe contara nada. Diria que não podia trair a confiança da filha, pois perderia a cumplicidade que tinham... Isso mesmo, elas eram cúmplices! E ele era um palhaço. Parecia que o assunto não lhe dizia respeito. Estava, apenas, sendo comunicado.

 
    - Ah, você precisava falar com o Marquinhos... Com certeza foi ele quem te apontou a saída brilhante do aborto - respondeu e, virando-se para Vera, continuou - E você está de acordo com tudo isso, não é? Tá vendo no que dá dar liberdade demais para crianças? Eu pensei que, pelo menos, você tivesse ensinado a sua filha a usar anticoncepcionais...

 
    - Chega, Antônio! Será que você não vê que só está piorando a situação? A última coisa que precisamos agora é do seu "eu disse, não disse?". Sua filha precisa de apoio e não de bronca – e, vendo que Luísa já começava a chorar de novo, Vera voltou-se para a filha, concluindo - E você, vê se pára de chorar, porque também não adianta nada...

 
    O.K., ele ia tentar agir civilizadamente, muito embora sua vontade fosse dar umas boas palmadas na filha e mandar dar uma surra naquele desgraçado daquele Marquinhos:

 
    - Você tem razão, Vera. - odiava essa frase, mas tinha aprendido a dizê-la em momentos cruciais, quando não podia se dar ao luxo de ter a mulher contra ele - Agora, Isabel, me explica como você foi engravidar. Eu acho que você sabe como evitar, não sabe? E, outra coisa, há quanto tempo você vem transando com esse rapaz?

 
    As lágrimas continuavam rolando pelas bochechas da menina, mas ela respondeu:

 
    - Foi só uma dia, foi na primeira vez. Eu ainda não tinha começado a tomar as pílulas que o ginecologista receitou pra mim. Já tinha até comprado, mas só ia começar no outro mês. Aí a gente usou camisinha. Acho que ela devia estar furada...

 
    Essa era demais, sua filha estava achando que ele era um idiota:

 
    - Furada! Você acha que eu sou débil mental? Se você dissesse uma coisa dessas há vinte anos atrás, eu até podia acreditar, mas, hoje em dia, camisinha não tem furo e só arrebenta se o cara não souber como põe, como esse seu namoradinho idiota...

 
    -Bom, eu mesma sou fruto de uma camisinha arrebentada, não sou? - disse-lhe a filha, com ar irônico.

 
    Quando é que sua mulher ia aprender a não contar tudo para as filhas? Lançou um olhar fulminante para Vera, que nada viu, pois olhava para o teto, a fim de evitá-lo..

 
    - Pois é, Luísa, só que isso aconteceu há mais de quinze anos, quando as camisinhas não tinham a qualidade que têm hoje.

 
    - Tá bom, pai, não sei de que adianta te contar isso, mas já que você insiste... A gente só tinha uma camisinha. Aí, da segunda vez, ele gozou fora, mas acho que alguma coisa deu errado.

 
    - Ha! Gozou fora! - não acreditava que estava tendo aquela conversa com a filha, a simples idéia de aquele Marquinhos gozar: fora, dentro ou em qualquer lugar próximo à sua filha, o deixava furioso - Você tem muita desenvoltura pra usar esse tipo de vocabulário com o seu próprio pai, mas é completamente ignorante. Ninguém nunca te ensinou que "gozar fora" não é seguro? Meu deus, eu pensei que ensinavam isso no colégio...

 
    - Foi você quem perguntou, e eu sei que não é seguro, eu sei que o cara pode errar a hora e...

 
    - Você não sabe porcaria nenhuma! É incrível, mas você não sabe nada. De que adiante essa porcaria dessa educação moderna? Você só aprendeu besteira sobre sexo. Não sabe que antes da ejaculação (é ejaculação que se diz, não "gozar") já pode haver esperma suficiente para engravidar a mulher? Mas agora você vai ter muito tempo para ler sobre o assunto, antes de fazer outra besteira, porque eu não vou admitir que você faça um aborto.

 
    Vera interrompeu:

 
    - Ora, Antônio, isso não...

 
    - Me deixa falar, tá? Garanto que você já teve muito tempo pra falar. Agora é a minha vez. Aborto é ilegal e, além disso, é imoral. Ainda mais nesse caso. Luísa, você engravidou por pura irresponsabilidade. Não é justo sacrificar, assassinar mesmo, um ser humano porque você foi irresponsável. Eu sei que você é muito nova, mas nós podemos ajudar a criar essa criança.

 
    Luísa estava atônita, as lágrimas rolando. Vera levantou-se e revidou, quase aos berros:

 
    - Eu não acredito, Antônio. Você, um defensor da pena de morte, preocupado com a vida de um embrião. Você devia se preocupar mais com a vida da sua filha.

 
    Antônio levantou-se, também, para enfrentar a mulher:

 
    - Um embrião inocente! Ele já tem vida, mas não tem culpa. Vocês querem aplicar a pena de morte para um bebê que não fez nada de errado e que não tem a menor chance de se defender.

 
    - Bebê! Ora, deixa de pieguice. É um embrião, um pontinho de nada. Melhor rejeitá-lo agora do que depois. Quem tem que saber se quer ou não o filho é a Luísa. No máximo, o Marquinhos.

 
    - Lindo, o Marquinhos! Cadê ele? Por que não está aqui, aquele imbecil?

 
    - A gente teve uma briga ontem. Eu falei que talvez eu quisesse ter o bebê e ele disse que, se eu fizesse uma loucura dessas, eu ia estragar a minha vida e a dele também - respondeu Luísa, olhando para o chão.

 
    - Tá vendo, Vera, ela quer ter o bebê! Ela só precisa do nosso apoio. Minha filha, eu sei que é uma responsabilidade muito grande, mas nós estamos aqui pra te ajudar. Você não vai querer viver com a culpa de um aborto.

 
    Luisa levantou-se e começou a andar de um lado para o outro.

 
    - Eu não sei, eu tô confusa. Eu sempre quis ter um filho, mas não tão cedo. Eu não quero estragar a minha vida. Eu não sei, não sei mesmo...

 
    Antônio foi abraçar a filha.

 
    - Pensa mais um pouco, é a vida de um ser humano que está em jogo - disse, olhando afetuosamente para a barriga da filha e acariciando-a.

 
    Vera saiu para o quarto, batendo a porta.

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