Naquele almoço Antônio selou a grande guinada de sua vida. Nas semanas seguintes, conseguiu tudo o que queria. Deixou a repartição sem dar maiores explicações aos colegas de anos de trabalho. Em casa, informou o estritamente necessário: tinha sido transferido em missão secreta; trabalharia só na parte da manhã e ganharia mais (o adicional de insalubridade foi confirmado). Cercou-se de um clima de mistério que muito o agradava; sentia que ganhava importância aos olhos de todos. Suas filhas ficaram excitadíssimas, achavam que ele era uma espécie de espião, um agente secreto. No começo, encheram-no de perguntas, mas logo conformaram-se em fantasiar sobre o trabalho do pai. Com Vera, a coisa já foi mais difícil. Custou muito a aceitar que não poderia saber qual era o novo trabalho do marido. Tentou, de todas as maneiras, arrancar alguma informação. Brigou, chorou, "jogou verde", fingiu aceitar para revistar seus papéis e seu celular, enquanto ele estava no banho, fez ameaças, bancou a vítima, e até tentou segui-lo até o trabalho... Mas Antonio estava atento e preparado. Foi paciente, porém firme. Vera acabou desistindo e contentou-se com um número de telefone fixo onde poderia encontrá-lo em caso de emergência. Afinal, com o aumento salarial de Antonio, não dava para reclamar.
Mas, o melhor foi que suas novas condições de trabalho lhe renderam argumentos para convencer Luisa a lhe dar o neto que tanto queria. Afinal, ganharia mais e ainda teria as tardes livres para ajudar a tomar conta do bebê. Nunca tinha sido um grande apreciador de crianças e, muito menos, de bebês, mas agora estava simplesmente obcecado com a idéia de ter um neto. Talvez fosse porque, pela primeira vez na vida, tinha certeza absoluta do caminho a tomar. Não se iludia, sabia que seria difícil, mas estava convicto de que era a decisão certa. Sua filha aprenderia que seus atos têm conseqüências e que não podia escapar às responsabilidades. Era a mesma coisa com os condenados, embora, no caso deles, o aprendizado viesse de forma um tanto tardia e fatal...
Conversou muito com Luisa. Era importante que ela mesma tomasse a decisão. Jamais pensou, no entanto, que fosse ser tão fácil. Esperava mais resistência da filha e, principalmente, de sua mulher. Mas Luisa parecia ansiosa por delegar a decisão; enquanto Vera, estranhamente confusa, não conseguia articular seus argumentos, sua indignação e seus conselhos. Às vezes, a surpreendia, observando-o com ar intrigado. Ela também estava sob o efeito do novo Antonio. Todos estavam. No fundo, não fora seu aumento, nem sua disponibilidade de tempo, que tinham influenciado a decisão de Luisa. Sua filha seguiu sua orientação porque percebeu o poder que dele emanava. E Vera sentiu que não tinha força para enfrentá-lo.
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