Hoje, logo cedo, uma grande amiga me entregou o convite de casamento de sua filha. Foi só ela ensaiar umas lágrimas, que eu também entrei na onda. Afinal, conheci a noiva quando ela era ainda criança e eu, uma jovem universitária. Agora, além de madrinha do meu filho, é médica e vai se casar. Quanta coisa aconteceu desde que conheci a menina de 6 anos. Eu me formei. Casei. Tive um filho. Ela passou no vestibular. Estudou. Se formou. Noivou (uma coisa retrô mesmo). Eu me separei. Ela vai casar. A leitura do convite deu direito àquele filminho usualmente reservado aos quase afogamentos. Sua vida de trás pra frente. Assim começou o meu dia.
E terminou com mais lágrimas, desta vez assistindo Tropicália, filme que, ao que tudo indica, não era para chorar. Pelo menos, não vi mais ninguém chorando. Mas comecei achando que ia ser apenas um amontoado de vídeos antigos que, hoje em dia, a gente consegue encontrar sozinho no youtube e terminei me emocionando com Gil, Caetano e todos os demais músicos retratados. Principalmente Caetano que, quando jovem, tinha um sorriso e uma alegria contagiantes. Ainda tem um sorriso bonito, sereno. Mas com uma pitada de cinismo, ceticismo ou seja-lá-o-que-for que substitui a inocência dos jovens. Inocência que, em vídeo gravado em Londres, nos anos 70, Jorge Mautner oferece devolver-lhe.
A passagem do tempo é muito perturbadora. Durante longos períodos, você não presta atenção. Daí quando chega a um marco da vida ou encontra um amigo antigo, um baú de fotografias, cartas, ou mesmo um diário, olha pra trás. E lá está você. Criança ainda. Aquela criança é você. Que não existe mais. Você lembra vagamente de como era ser ela. Mas não é mais. Talvez ela ainda habite um pedacinho seu qualquer. E, mais adiante, há apenas 20 anos atrás. Fotos, cartas, escritos, provas de que você andava por aqui, pensando algumas coisas que ainda pensa e outras que há tempos deixou de pensar. Mais uma vez, é alguém muito parecido com você, mas que não é exatamente você. Ou é apenas uma parte sua. Hoje, você é todas as pessoas que já foi. Uma matrioska. Aquela boneca de madeira russa, que tem outra dentro, que tem mais outra, e outra e outra... É o que o tempo faz com as pessoas. Matrioskas.
..quando foi que nós deixamos de ser quem éramos e passamos a ser quem somos? Não tem resposta, eu acho; é isso mesmo de ser em constante movimento.
ResponderExcluirBjs