terça-feira, 11 de outubro de 2011

O CARRASCO 18


    Ainda bem que você pôde me receber, assim, de uma hora pra outra. Eu devia ter te procurado antes, logo que essa loucura toda começou... Mas demorei pra acreditar que Luisa ia mesmo ter esse filho. E também tentei ignorar as mudanças de Antonio. Agora estou com muito medo. Há dois anos atrás, quando eu larguei a terapia, estava tudo tranqüilo na minha vida. As meninas iam bem, o casamento tinha melhorado com aquela sacudida, o meu trabalho estava sendo reconhecido e bem remunerado. Agora, parece que está tudo de pernas pro ar. Luisa embarcou nessa loucura de ter um filho. Imagina que eu vou ser avó, aos 42 anos de idade... Mas, o pior de tudo, que, de certa forma, acho que é também a razão disso tudo, é a mudança de comportamento do meu marido. Não o reconheço mais. E não me reconheço tampouco. Nunca imaginei que aceitaria as coisas que venho aceitando. E agora não falo só da gravidez de Luisa e da forma como ele manipulou a menina a desistir de um aborto... O que está me assustando é o comportamento sexual de Antonio. E o meu. Ele sempre foi carinhoso, atencioso. Tomava a iniciativa, sabia me agradar e tudo mais. Mas, não era agressivo, nem insistente. De repente, na mesma época em que começou essa confusão toda, ele mudou. Não sei se tem a ver com o novo trabalho. É, porque ele mudou de trabalho. Continua sendo funcionário do Estado, mas agora tem um cargo secreto, em que trabalha apenas meio expediente e ganha o dobro do que ganhava antes. Talvez seja isso. Acho que antes ele se sentia um pouco diminuído porque ganhava menos que eu. Agora, ganha mais e ainda tem esse mistério todo. Que eu não gosto nada, nada... Mas o que eu posso fazer? Enfim, foi depois disso que ele começou a ficar mais agressivo. Mudou a pegada. No começo, até achei excitante. Mas, ontem, fiquei assustada. Cheguei tarde do trabalho e as meninas já estavam deitadas. Ele me chamou até o nosso quarto, onde havia um embrulho enorme, do tamanho de um móvel. Disse para eu ir dar boa noite para as crianças e depois voltar, que ele ia me mostrar a surpresa que tinha comprado para nós. Quando voltei, estava lá uma cadeira horrorosa, parecia uma cadeira ginecológica antiga, sei lá... Ele fechou a porta e, com o novo tom que agora usa na cama, me falou pra tirar a roupa e sentar na cadeira. Eu obedeci. Tentei fazer graça, levar na brincadeira, mas ele parece incorporar outra pessoa e acabo emudecendo. É muito estranho, fico com receio de um homem que conheço há mais de 15 anos. Só que não é mais o mesmo. Se fosse o antigo, eu riria e diria que prefiro a cama. Mas, do jeito que ele fala, me dá medo, me excita, e acabo fazendo o que ele manda. Acho que tem um lado meu que realmente gosta desse novo Antonio dominador. Posso relaxar e aproveitar, sem culpa, qualquer perversão que ele invente. Mas, no dia seguinte, me sinto muito mal. Acho que ele está doente e que eu estou pirando... Ele me amarrou, mais uma vez... Fico com vergonha de entrar em detalhes. Tenho vergonha de olhar pra ele, de manhã. Ele age como se não tivesse acontecido nada demais. Apenas uma noite "caliente". (...) Eu sei, eu sei que, entre quatro paredes, tudo é permitido, desde que os dois queiram. O problema é que eu acho que não quero e, no entanto, não consigo recusar.

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