quinta-feira, 6 de outubro de 2011

O CARRASCO 17

       Perfeito!, pensa Antonio, enquanto finge consternação com o sofrimento da filha. Não quer parecer insensível. Mas, tem certeza de que, no final das contas, a mudança da família de Marquinhos será melhor para todos. Procura animar Luisa:
       - Minha filha, você lembra que amanhã fica pronto o resultado do exame de sangue que diz o sexo do bebê? À tarde, quando eu voltar do trabalho, podemos passar no laboratório pra buscar e ir direto ao shopping comprar mais umas roupinhas... O que você acha? – pergunta, acariciando a cabeça da menina.
       Por alguns instantes, chega a arrepender-se da abordagem. Luisa soluça com mais intensidade. Um pouco depois, no entanto, parece acalmar-se e, fungando um pouco, responde:
       - Obrigada, pai... Se for menina, você me leva naquela loja onde a gente viu aqueles vestidinhos coloridos?
       - Claro, Luisa, te levo onde você quiser... E se for menino? – pergunta, sem disfarçar sua preferência.
       - Ah, pai, se for menino a gente compra aquele macacão que imita um terno, lembra? – responde, esboçando um sorriso.
       - Ótimo! Então está combinado. Agora vamos dormir porque a senhora precisa descansar pra esse bebê crescer forte.

       Antonio não cabe em si de felicidade com a confirmação de que o bebê é do sexo masculino. Para completar sua alegria, Luisa decide que vai dar-lhe o nome do pai: Antonio.
       - O apelido pode ser Toni, ou Tonico...- explica para a mãe.
       - Ou Toninho. – diz Antonio, enquanto observa o esforço que a mulher faz para disfarçar o ciúme. Uma pena que ela não consiga compartilhar de sua felicidade. Mas, na noite seguinte, irá surpreendê-la. Tirou o dia de folga e agendou a entrega da encomenda para o período da manhã. Assim, não haverá ninguém em casa e ele poderá preparar o quarto sem intromissões. Não quer que Vera veja do que se trata, logo de cara. Vai embrulhar tudo e explicar que é uma surpresa, para depois que as meninas dormirem. Fica excitado só de imaginar.
       - Hein, pai!!! Hellôô!! Tô falando com você...- Luisa o cutuca, impaciente.
       - Sim, filha, desculpe, me distraí... O que foi?
       - Você tinha algum apelido diferente, quando era pequeno?
       - Meus pais me chamavam de Tonho. Mas, eu não gostava... Preferia Toni... – recorda, melancólico. Lembra que o pai o chamara de Tonho até os últimos dias. Dizia que Toni era coisa da veado. Já a sua mãe, sempre respeitou sua vontade. Depois que lhe pediu, aos 14 anos, que parasse de chamá-lo de Tonho, ela pouquíssimas vezes deixou escapar o apelido de infância. Na frente de seus amigos, adotava o moderno Toni. Em particular, alternava Toninho e Antonio, conforme a gravidade do assunto. Mas, em geral, chamava-o  apenas de “meu filho”.
       - Ai, Tonho! Ninguém merece! Parece nome de jagunço de novela – comenta Luisa, rindo.
       - É verdade, minha filha, por isso mesmo que eu não gostava...
       - Não combinava com a vida de playboy que seu pai levava na juventude... – implica Vera, enquanto lava a louça, de costas para a filha e o marido, sentados à mesinha da cozinha.
       Antonio pensa em retrucar, mas escolhe fingir que não percebeu a cutucada e responder com bom humor:
       - Você bem que gostava de um playboy, não é, meu amor? – e dá-lhe um tapinha na bunda.
       - Antonio!!! – reage a mulher, com falsa indignação.
       As coisas já estão melhorando. Amanhã ela vai ter uma noite inesquecível. Antonio levanta-se, beija a mulher e a filha e declara:
       - Bom, eu vou me deitar, porque hoje o dia foi muito cheio de emoções e estou esgotado... Boa noite!

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