sexta-feira, 26 de agosto de 2011

O CARRASCO 15


     Na manhã seguinte, Vera acorda mais cedo do que de costume e sai, deixando o resto da casa dormindo. Precisa espairecer e tentar pôr os pensamentos em ordem. Na Avenida Nossa Senhora de Copacabana, o comércio está abrindo. Na volta, pode aproveitar para comprar a mochila que Isabel lhe pediu. Sábado é dia de compras, de manicure e de almoço na casa de sua mãe. Mas, antes vai até a praia. Sentada no banco do calçadão, tenta aquecer-se sob o sol de inverno. Na areia, os barraqueiros ainda estão arrumando seus isopores. Dois rapazes, de sunga, passam correndo pela areia fofa. Alguns garotos jogam futebol. À direita, em frente ao hotel, uns poucos gringos ignoram o frio e relaxam nas cadeiras azuis, sob o olhar atento de um segurança, sentado na parte mais alta, perto da barraca de bebidas. De resto, a praia está quase vazia, pois o sol fraco não é páreo para o vento frio que vem do mar. Aliás, o mar também parece perigoso. A bandeira vermelha, fincada perto da arrebentação, adverte para a correnteza, mas o tamanho das ondas dispensa o aviso.
    O que estará acontecendo com seu marido? Depois de tantos anos de casamento, pensava que o conhecia, mas, de repente, ele mostrava atitudes completamente imprevisíveis e surpreendentes. A maior parte delas, péssimas. Não sabe precisar se a mudança começou com a gravidez de Luisa ou com o novo trabalho. Foi tudo ao mesmo tempo. Mas, até o jeito de Antonio se vestir estava diferente. Poderia ser o aumento salarial. Afinal, ele estava ganhando praticamente o dobro do que ganhava no antigo cargo, o que significava que, pela primeira vez na vida, seu salário era igual ao de Vera. O que talvez explicasse algumas roupas novas e até um pouco mais de segurança no jeito de vestir, mas não justificava a nova postura autoritária...
    Não concordava com os que achavam Antonio fraco e preguiçoso. Seu marido era apenas um pouco infantil e inconseqüente. Agora percebia que talvez estivesse enganada. As lembranças da véspera insistiam em invadir seus pensamentos. A palavra estupro se insinuava e ela a rejeitava, de imediato. Se lhe dera prazer, não podia ser estupro. Ou podia? Não, ela não oferecera resistência... Tudo não passou de um jogo, um faz-de-conta entre adultos. Se tivesse reagido de verdade, ele não a teria forçado. Claro! O pai de suas filhas era um bom homem. Um tanto reacionário e machista, porém bom. O problema não era a noite de ontem, mas a gravidez de Luisa.
    Chega em casa, três horas depois, mais tranqüila, de unhas feitas e trazendo a mochila de Isabel. Encontra um bilhete de Antonio na bancada da cozinha, informando que saiu com Luisa e que não iriam almoçar com ela na casa de sua mãe. Lê o bilhete por uma segunda vez, para ver se, da primeira, lhe escapara alguma coisa. Mas, não. O marido não dissera aonde tinham ido e nem a que horas voltariam. Bem, poderia telefonar... Melhor, não. Não queria parecer controladora. Almoçaria com Isabel, na casa de sua mãe, e, mais cedo ou mais tarde, teria notícias de Antonio e Luisa. Até seria melhor assim. Não contara a "novidade" para D. Cristina; tinha esperanças de que Luisa mudasse de idéia e que não fosse necessário. Sozinha com Isabel, ficaria mais fácil evitar o assunto. Joga fora o bilhete e vai chamar a filha no quarto, levando a mochila nova.

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