domingo, 7 de agosto de 2011

O CARRASCO - 14



 

    - São uns merdas esses pais do Marquinhos! – grita Antonio, sentado na cama, em direção ao banheiro, onde Vera está removendo a maquiagem – Uns verdadeiros merdas... Hipongas irresponsáveis... Mas não tem problema, não, já estarão ajudando muito se não atrapalharem... Hein, Vera, tá me ouvindo?
    - Tô, Antonio... – responde Vera, enquanto enxuga o rosto na toalha.
    Preferia não ter essa conversa, mas, por algum motivo que fugia à sua compreensão, ultimamente vinha sendo muito difícil contrariar Antonio. Não parecia mais o mesmo homem com quem se casara. Depois de mais de 15 anos de vida em comum, era até instigante essa sensação, mas, nem por isso, menos perturbadora. Se bem que o discurso era exatamente o que ela previra...
    - E o garoto? Um banana! A gente cria filha pra isso... Pra vir um moleque sem-vergonha, mal saído das fraldas, com cara de sonso, e levar ela pra cama... Só de pensar, chega a me dar uma sensação ruim no peito... Mas, pelo menos, os bichos-grilos vão dar "o maiorrrr apoio"... – Antonio puxa o "r" e ri da própria piada.
    Já está se sentindo melhor... Aliás, sente-se muito bem. Aliviado. Era importante ter o apoio dos pais de Marquinhos, num primeiro momento. Assim, havia menos risco de ele influenciar Luisa a desistir da criança... Agora tinha certeza de que isso não aconteceria. Mais um mês, no máximo, e já não haveria como voltar atrás. A noite tinha sido um sucesso! Queria comemorar. Mas Vera estava demorando no banheiro...
    - Vera! Vem logo! Por que tá demorando tanto?
    Era só o que faltava! Depois de um jantar exaustivo desses, Antonio ainda queria sexo. Pensou em responder, "porque acabei de menstruar e estou com uma tremenda cólica", mas até mentir para seu marido estava ficando mais difícil...
    - Amor, eu tô morta de cansaço... Vamos deixar pra amanhã, vamos? – responde, entrando no quarto, de camisola de renda preta (um erro, mas era a que estava usando aquela semana, e já a tinha vestido antes de perceber as intenções de Antonio).
    - Cansada! A avó mais sexy do Brasil está cansada?! Nananinanão! Eu tenho uma surpresinha pra você... Nem vai precisar fazer esforço algum – diz Antonio, puxando a mulher para a cama – Deita aqui e fecha os olhos.
    De que adiantaria negar? Melhor relaxar... Pelo menos ele parecia estar pretendendo uma modalidade passiva...
    - Você trancou a porta? – ainda se lembra de perguntar, enquanto se acomoda bem no meio da cama, seguindo as orientações de Antonio.
    - Claro, fica tranqüila... Agora fecha os olhos e me dá o seu braço direito...
    Antonio tinha deixado as algemas guardadas na gaveta de sua mesa de cabeceira. Eram perfeitas para prender no gradeado de ferro do espaldar da cama do casal. Começa prendendo uma delas na cama e depois pega o braço de Vera e, rapidamente, fecha o outro lado da algema em torno do seu pulso. Ela abre os olhos, assustada:
    - Que é isso? Tá maluco? – tenta levantar-se na cama, mas ele é mais rápido e senta-se sobre ela, segurando o seu braço esquerdo.
    - Calma, meu amor, é só uma brincadeira... Você não está exausta? Então, só precisa ficar bem quietinha... - explica, com um sorriso malicioso.
    Ela poderia gritar, mordê-lo, chutá-lo... Enfim, reagir. Mas não reage. Um confronto seria pior. Diz pra ele parar, mas, sem muita convicção. Ele não leva a sério seus protestos. Ela também não. Está indignada, mas, excitada. Não tem escolha. Gosta disso.

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