domingo, 4 de dezembro de 2011

O CARRASCO - 20

        Aquele choro a perseguiria por muito tempo, penetrando em seus ouvidos como uma acusação. Luísa não conseguiu amamentar o filho: nem no dia do nascimento, nem nunca. E ele chorava, chorava e chorava, de forma tão persistente, que o único jeito de evitar aquele som enlouquecedor, era afastar-se dele. Foi o que fez.

 
        Ninguém a compreendia. Ninguém sabia o susto que tinha passado ao deparar-se pela primeira vez com aquele bebê. Naturalmente, pensavam que devia estar preparada. Qual seria o sentido de uma gestação de nove meses, se não preparar a mãe para a chegada do neném? Luísa não tinha a menor idéia, só sabia que, para ela, nove meses não tinham sido suficientes.

 
        Durante a gravidez, até que as coisas foram bem. A situação tinha um lado constrangedor, sentia que as pessoas a olhavam como se fosse uma espécie de aberração. Mas, ao mesmo tempo, ganhara um certo status de adulta. Seus amigos, embora a maior parte achasse uma loucura ela ter um filho, tratavam-na com respeito e consideração especiais. As meninas perguntavam sobre todos os detalhes da gravidez, em uma mistura de admiração, inveja e pena. Era gostoso desfilar a barriga imensa pelas ruas, aceitar os assentos que lhe eram oferecidos por rapazes gentis nos ônibus lotados, ser mimada pelo pai, que lhe trazia sempre uma guloseima, na volta do trabalho.

 
        No centro de tantas atenções, até esquecia a estranha sensação de ter um ser independente crescendo, à sua revelia, dentro de seu corpo. Até mesmo na hora dos exames, nada parecia muito real. A ultrassonografia de última geração mostrava imagens do embrião que revelavam tratar-se de um menino, para alegria de seu pai. Mas, apesar das imagens bastante nítidas de seu filho, no fundo, ela não acreditava muito que aquele animalzinho que aparecia na tela do computador fosse realmente uma criança crescendo em seu ventre. Nem mesmo as roupinhas que comprava ou ganhava da família e dos amigos tornavam mais concreta a iminente chegada de seu filho.

 
        O nascimento de Toninho foi um choque. Após horas de dor excruciante, aquele bebê vermelho, com cara de joelho, foi puxado de dentro dela, comprovando que tinha estado lá o tempo todo. E, ainda por cima, chorava, enquanto todos a olhavam, como se fosse ela a responsável pelo seu choro, pelo seu sofrimento, e não o contrário. A enfermeira, o médico, sua família, todos queriam que amamentasse o bebê. Sequer consideravam a hipótese de que ela não quisesse fazê-lo. E não queria. Estava cansada e assustada.

 
        De uma hora para a outra, parecia que ninguém se preocupava mais com o seu bem estar, que vinha sendo uma prioridade absoluta nos últimos meses. Agora só se importavam com o bebê. Ela era apenas a mãe de Toninho e, como tal, deveria sacrificar-se por ele. A pressão foi tanta, que acabou se resignando e tentou amamentá-lo. Procurou esquecer a vergonha de expor o seio nu diante daquela platéia ávida, encarando o ato como uma demonstração de que era uma mulher adulta e completa. Mas, quando aquelas mãozinhas minúsculas tocaram no seu peito e aquela boquinha sugou o bico intumescido com uma força tirada sabe-se lá de onde, sentiu dor, sentiu vergonha, sentiu até nojo. Enquanto isso, todos admiravam a cena, encantados com a voracidade de Toninho. Ela sofrendo, e a platéia comentando que ela devia ter bastante leite, o que seria ótimo para o bebê. Não queria participar daquilo. Olhou pela janela. O dia estava lindo. Há tempos não via um céu tão azul. Começou a chorar.

 

 

 

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