terça-feira, 13 de setembro de 2011

O CARRASCO 16



        Ao voltar do almoço com Isabel, Vera encontra Antonio e Luisa na sala, em meio a um monte de sacolas e embrulhos.
        - Mãe, que bom que você chegou! Olha as coisas lindas que a gente comprou pro bebê! – exclama Luisa, mostrando um macacãozinho amarelo.
        - Ai, que fofo! – grita Isabel, praticamente empurrando a mãe e atirando-se no sofá para ver as compras da irmã.
        Antonio pega uma sacola enorme e chama a esposa, que ainda está atônita, parada na entrada da sala:
        - Vera, pra você não achar que nós só compramos futilidades, tem aqui uns pacotes de fraldas...
        - Fraldas, Antonio??!! – interrompeu Vera, indignada, sem saber o que dizer. Estava tudo errado! Luisa não devia ter o bebê. E, se fosse para tê-lo, não deveria sair sozinha com o pai para comprar suas primeiras roupinhas (nem muito menos fraldas!). Esse era o papel da avó! Mas, é claro que não a chamaram porque sabem que ela é contra... Aliás, se tivesse sido convidada, provavelmente teria recusado. Então, ficava difícil culpá-los... Não, não ficava nada difícil, a culpa era mesmo de Antonio. Ele estava manipulando Luisa e esse passeio de compras era parte disso. Mas, não podia passar recibo, isso só a afastaria mais da filha e sepultaria de vez suas chances de reverter a situação.
        - É, Vera, fraldas! É bom ir comprando aos poucos, porque é uma despesa e tanto... – responde Antonio, rindo, como se fosse o mais inocente e bem-intencionado dos homens.
        “Quem não te conhece que te compre”, pensa, forçando um sorriso amarelo e concordando com o marido:
        - É mesmo, só não sei se temos espaço para um estoque grande - e, voltando-se para Luisa, desconversa – Deixa eu ver esse jeans... Que coisinha mais bonitinha...
        Fica mais alguns minutos com as meninas, esforçando-se para não deixar transparecer o quão contrariada está. O genuíno entusiasmo de Isabel, soltando gritinhos a cada novo pacote aberto, facilita a tarefa. Aproveita o toque do telefone para deixar a sala. No quarto, a amiga lhe pergunta, ao telefone:
        - E aí, como estão as coisas?
        - Nem sei – responde, sentando-se na cama – Não reconheço mais meu marido e minha filha está praticamente me ignorando... Estão lá na sala, agora, vendo as roupinhas que compraram para o bebê... – choraminga.
        - Ah, Vera... Não fica assim... Você não tem como impedir... Então, talvez seja o caso de tentar curtir com eles...
        - Eu sei, eu sei, você tem razão. Mas ainda não perdi totalmente as esperanças... Ainda dá tempo pra Luisa mudar de idéia...


        Mas a esperança, embora seja a última a morrer, não faz parar o tempo. Nas semanas seguintes, Vera mergulha no trabalho, enquanto Antonio e Luisa continuam dedicados ao bebê. Até conseguem arrastar Marquinhos para o primeiro ultrassom. “Foi tão emocionante, mãe, ouvir o coraçãozinho dele batendo”. As palavras de Luisa deixam Vera arrasada. Que raio de mãe era ela, que não acompanhava a filha adolescente num momento desses? Mas a verdade é que sequer tinha sido convidada... “Até o Marquinhos se emocionou, não foi, pai?”.
        Dois dias depois, Vera chega do trabalho e encontra a filha aos prantos, estirada no sofá da sala.
        - O que houve?! – pergunta, alarmada.
        A menina chora e soluça tanto, que é difícil entender o que se passa:
        - O Marquinhos... O Marquinhos... – e chora.... e soluça...
        - O que tem ele? Vocês brigaram? – a pergunta é retórica, porque é óbvio que o casal, que já não estava bem, só podia ter rompido...
        Vera abraça a filha e tenta acalmá-la para ver se extrai a história toda. Após alguns minutos e um copo d’água, Luisa finalmente consegue esclarecer:
        - O Marquinhos vai morar em Nova Iorque com os pais... Viajam no final do mês... – e se debulha em lágrimas novamente.

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